A pessoa mais livre, mais poderosa, expressa a maior leveza no momento mais sério que o ser humano enfrenta --- a morte. A liberdade é o riso antes do último sopro, é a inversão da maior tragédia. Quem sabe rir na morte, viveu, pois aprendeu a morrer enquanto vivo.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
terça-feira, 18 de outubro de 2022
Riso
Deixo morrer, dentro de mim, uma grande ideia. Deitado na cama, ouço-lhe os últimos sopros - morre a ideia que tenho de mim próprio. Desisti de a tentar salvar. Desisti, pois essa ideia que morre é uma algema que ponho a mim próprio. E quem se algema a si próprio, será livre? Mantenho viva em mim, contudo, a ideia do que quero ser --- e quem sou eu, senão a ideia do que quero ser? Essa pessoa desarma a morte com o riso. É a pessoa mais livre, e também a mais poderosa --- pois é capaz de expressar a maior leveza, a menor seriedade, no momento mais pesado e sério que o homem enfrenta.
terça-feira, 12 de abril de 2022
Tambores
Cada golpe no tambor,
cada grito de liberdade,
é um manifesto contra a gravidade.
A onda de sangue sobe e leva a dor
deixa atrás de si a luz e o calor
que um dia farão um sol.
Um dia, cada golpe no tambor
será por si só um nascer do dia.
Os corações que batem na noite
quando o dia nascer, baterão ao ritmo
dos tambores da libertação.
domingo, 19 de setembro de 2021
A um deus que talvez exista
Se Deus existe, então que ouça estas palavras.
O facto de eu ser um segredo para mim mesmo não é segredo para ninguém.
Na verdade, a ignorância sobre mim próprio é natural, porque tanto em mim é potencial.
Não consigo expressar parte daquilo que sou, não consigo falar daquilo que se está por realizar.
Parte de mim é o futuro em mim, e sobre isso não sei muito.
A ignorância sobre mim próprio não me impede, no entanto, de ter algumas certezas.
Elas são, por assim dizer, a substância do meu ser, e do sucesso e da ruína que está por vir.
Falo primeiro da minha postura quanto à realidade física, à natureza, ao universo onde habito.
Sou um explorador da natureza, por natureza, pois é nela que me perco e me encontro.
Mas a verdade revelada na exploração nem sempre é uma benção.
Mas se é a verdade, tenho a certeza de que existe nela uma certa beleza.
A minha vontade de encontrar a verdade é pura, apesar de eu próprio não o ser.
E se há poder na verdade, sou capaz de o usar e, quando necessário, dele abdicar.
Quanto à condição humana, é-me difícil expressar, por isso dou exemplo.
Ao Homem que faz Mal, não serei um santo, pois não sou santo em geral.
Mas quando sobre ele tudo se abate, tão extremo o seu sofrimento,
e tão desnecessário - sinto um aperto. Sou um coração mole,
mas também o Sol é mole, e não arde menos por isso.
E se o que arde violentamente for mole de coração?
domingo, 22 de agosto de 2021
Sol
Tenho um propósito: descobrir aquilo que é mais fundamental no universo, fora e dentro de mim. O que é fundamental é verdade, e isso basta-me.
O que recebo do mundo, quero-o inalterado e puro. Pessoas, gosto das que choram e riem da tragédia, e daquelas que são mais do que os sons que lhes saem da boca.
O caminho, por agora faço-o sozinho, a passo lento e errático, mas autêntico. Não tenho muitas ideias sobre o que vou encontrar. As trevas, ilumino-as ou morro a tentar. E se a última, talvez vão à minha procura, e tragam consigo, no riso e choro, uma luz mais forte do que a minha.
Mergulho nas trevas porque a vontade de ver o sol nascer, fora e dentro de mim, é tanta.
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