sábado, 8 de junho de 2024

Prece

Peço-te um desejo: que me deixes morrer.
Se fores piedoso, o meu corpo permanecerá
tão salutar como qualquer amanhecer.

Liberta-me - livre, faço bem o teu trabalho.
Destrói-me - revelerás, assim, o meu cerne.

Quero dar a este mundo aquilo que de mim precisa.
Se nada, então tira-me também o corpo.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Ciclo da Alma

Um grande calor a secar a miríade de poças que nos encerra.
Unidos nas nuvens, somos oceano no ar.
E chovemos enfim na terra, nós, Dilúvio.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Poema da Essência

Descasco esta cebola à luz das estrelas.
Resta depois de mil camadas me livrar,
um único ponto iluminado na noite,
um cosmos que expandiu no descamar.

Desapareci, e encontrei-me.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Abismo

Abro os olhos e desliza o mundo para o abismo. À minha volta, poucos são os olhos onde réstia de luz brilha: o abismo alastra-se, dentro de nós. Percebo, então, que é hora de desistir de tudo: de um caloroso amor, de uma mão amiga, de uma vida moderna, de uma casa com lareira, deste corpo. Aceito, com todo o meu ser, o grande sofrimento que nos vem abraçar. Aceito o Nada. E curiosamente, não me desfaço em Nada, não me deprimo, não me torno nesse Nada que bate à porta. 

Aceito o Nada e torno-me em alguma coisa, que ainda hei-de aqui descrever.

terça-feira, 26 de março de 2024

Solidão

Quão grande o fogo que arde dentro de mim, e quanto tem vindo a crescer. Labaredas que chegam à superfície da minha alma, e que nascem na sua profundeza. Não importa, porque nunca são vistas; e quando são vistas, não são apreciadas. Estou só, um facto que parece ser permanente.

Todo o meu esforço, todo o meu crescimento se resume a isto: expandir a bolha que sou eu e envolver o mundo inteiro. Tudo isto implica mudança e capacidade de sofrimento, um apagar e rescrever, uma reconciliação consigo próprio e com o outro, uma dialéctica infindável. E implica, também, o não esperar recompensa por tamanho trabalho. 

Mas será que implica perder a esperança de encontrar um outro que se encontre em mim? Pode esta universalidade ser amada?

Ser amado é ser visto; e a luz da chama não chega aos olhos de ninguém.