sábado, 31 de janeiro de 2026

Concepções Rilkianas

"Levar a termo e então dar à luz, eis o que tudo é.", diz Rilke ao jovem e desorientado poeta Kappus, referindo-se ao processo criativo.

Divida-se o universo entre exterioridade e interioridade. A minha interioridade é, seguramente, muito maior do que Eu como ser consciente, com uma história de vida e com uma identidade. Parte da minha interioridade não tem, de facto, nada que ver com histórias e experiências do Eu consciente. É essa parte que Rilke refere ao longo destas cartas. Para Rilke, esse espaço interior é uma realidade em si própria, regida por leis das profundezas, o grande jardim da criatividade humana, onde ideias, sentimentos e experiências maturam e germinam, silenciosamente. Está-se grávido de sonetos, leva-se a termo sinfonias, e dá-se à luz um grande quadro – este é o sítio privilegiado do artista. Absoluta confiança nas leis, e uma paciência resoluta na gravidez, são as características daqueles que dominam a arte.

Esta concepção do processo criativo tem uma analogia óbvia com maternidade. Numa linda reflexão sobre o assunto, Rilke aproxima o homem e a mulher.

"E quer-me parecer que também no homem há maternidade (...); o gerar por parte do homem é também uma espécie de dar à luz. (...) E talvez os dois sexos sejam mais aparentados do que se julga, e a grande renovação do mundo consistirá porventura em que homem e mulher, libertos de todos os sentimentos erróneos e aversões, se não procurem como contrários, mas sim como irmãos e vizinhos, e se juntem como seres humanos (...)".

Da mesma forma, o deus de Rilke é o Deus do Futuro. O jovem poeta, ao declarar que perdeu Deus durante a sua infância, recebe uma carta de Rilke com a seguinte reflexão:

"Porque não pensa que ele é o que aí vem, que está iminente desde toda a eternidade, o vindouro, o fruto final de uma árvore cujas folhas somos nós? (...) Tal como as abelhas juntam o mel, assim buscamos nós o que há de mais doce em todas as coisas, e construímo-lo."

Deus é o produto final de um processo criativo levado a cabo por toda a humanidade; o bebé de uma eterna gravidez; a derradeira obra de arte dada à luz no limite. É derradeira, porque é uma refinação do que há de melhor nas experiências, sentimentos e ideias da humanidade. Esta concepção maravilhosa é uma inversão do mais habitual Deus criador e que vive fora do tempo.

O jovem poeta Kappus enfrenta uma enorme tristeza e desconhece a sua origem. E discorrendo sobre esse sentimento, Rilke responde ao jovem poeta.

"Creio que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão que experimentamos como paralisia, porque já não ouvimos os nossos sentimentos, tornados estranhos. Porque estamos sós com o estranho que entrou em nós."

Que estranha coisa entrou em nós e nos entristeceu? O futuro.

"(...) o futuro entra em nós desse modo para se metamorfosearem em nós muito antes de acontecer. (...) Sendo tristes, quanto mais tranquilos, pacientes e abertos formos, tanto mais (...) o novo entrará em nós, tanto melhor o adquiriremos, tanto mais ele será o nosso destino, e, quando um dia mais tarde ele 'acontecer' (quer dizer: quando ele, saindo de nós, se apresentar a outros), sentir-nos-emos no mais interior de nós em afinidade e proximidade com ele. (...) É preciso (...) que nada que nos seja estranho nos aconteça, antes apenas aquilo que desde há muito nos pertence."

O futuro é experienciado duas vezes. Primeiro, quando entra nos seres humanos como um sentimento estranho – como só podia ser, dado que ninguém conhece o futuro –, onde matura e germina na nossa interioridade, tal como qualquer outra experiência. Depois, levando a termo esse futuro, dá-se à luz – o futuro sai de nós, fazendo agora parte da exterioridade do universo.

"Houve já que repensar tantos conceitos de movimento, gradualmente aprender-se-á também a reconhecer que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos seres humanos, em vez de entrar neles vindo de fora."

O futuro sai dos seres humanos, e a exterioridade é interioridade expelida.